sábado, 31 de julho de 2010

Como era dura a vida sem o zero.

Por Luiz Barco


  Qual foi a mais importante descoberta feita pelo homem? Alguém pensará na roda, outro no fogo, na penicilina, na televisão... e por ai se pode ir muito longe. Acrescento uma outra em que provavelmente ninguém vai pensar: o zero. Isso mesmo, o zero do nosso sistema de numeração. Pois ele não existiu sempre.
  Na verdade, só apareceu muitos séculos depois que a humanidade aprendera a contar e a representar graficamente suas contas. Seu uso consagraou-se na Europa por volta do século XIV, embora haja indicios de que algumas civilizações o utilizassem antes.
  Dele disse o matemático americano Tobias Dantzing: "Concebido, com toda a probabilidade, como símbolo para uma coluna vazia no ábaco, o sunya indiano estava destinado a tornar-se o ponto crucial num desenvolvimento sem o qual o progresso da ciência moderna, da industria e do comércio é inconcebivel". É dificil acreditar que os homens levaram 5 mil anos entre escrever números e conceber o nosso sistema de numeração posicional. Datam de antes de 3500 a.C. os registros mais antigos, indicando o uso sistemático de numerais escritos, e eles eram dos sumérios e dos egípcios.
  Conta-se que, no século XIV, um mercador alemão quis escolher uma boa escola para o filho e foi aconselhar-se com um professor. Esse recomendou: se o aprendiz fosse limitar-se à soma e à subtração, bastaria freqüentar uma universidade alemã; se quisesse multiplicar e dividir deveria ir à Itália, pois só lá se podia obter instrução tão avançada. Mas é preciso esclarecer que fazer esses cálculos naqueles tempos nada tinha a ver com as técnicas que empregamos hoje. A multiplicação era obtida por duplicações sucessivas e a divisão por mediações sucessivas, ou seja, sucessivas divisões por dois.

  É razoável imaginar que os sistemas numéricos nasceram da necessidade que o ho-mem primitivo tinha de registrar seus bens – rebanhos, por exemplo. Logo as necessidades foram alem do simples registro e então surgiram às operações aritméticas, que levaram à criação do ábaco, um curioso e simples aparelho que permite fazer os cálculos por meio de contas moveis. Durante muito tempo os homens mantiveram um sistema de numeração escrita para registrar os bens e o ábaco, para fazer cálculos. Houve quem tentasse elaborar regras para operar com os números escritos, mas as dificuldades eram grandes.
  E por isso a humanidade levou um tempo enorme para passar do ábaco para a nume-ração posicional moderna. Um período em que muitas civilizações floresceram e pereceram, deixando-nos um rico legado de obras literárias, artísticas, filosóficas e religiosas.
  A luz sobre essa questão começa a se fazer quando examinamos o esqueleto de nossa numeração moderna. O principio posicional consiste em dar ao algarismo um valor que depende não apenas do membro da seqüência natural que ele representa, como também da posição que ocupa em relação aos outros símbolos do grupo. Assim, o algarismo 3 tem signifi-cados diferentes nos números 423, 537 e 386: no primeiro significa 3, no segundo 30 e no terceiro 300.
  Parece suficiente traduzir esse esquema na linguagem dos numerais para obtermos o que temos hoje.
  Foi necessário criar um símbolo para as casas que ficavam vazias no ábaco, conforme estivéssemos escrevendo 43, 430, 403, 4003 etc. Hoje parece simples, mas a mentalidade concreta dos antigos gregos, por exemplo, não podia conceber o vazio, o nada, como um numero. Provavelmente, nem os hindus viram no zero o símbolo do nada. O termo indiano sunya significa vazio ou espaço em branco, mas não o nada.
  Assim, tudo leva a crer que a descoberta do zero foi um acidente causado pela tentativa de fazer um registro permanente e claro de uma operação do ábaco. Não foi à toa que o grande matemático astrônomo e físico francês Pierre-Simon Laplace (1749 - 1827), observou: “Apreciaremos ainda mais a grandeza dessa conquista se lembra-mo-nos de que ela escapou ao gênio de Arquimedes e Apolônio, dois dos maiores ho-mens da Antiguidade.”


Luis Barco é professor da Escola de comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

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